Eu me autorizo falar psicanaliticamente da tortura por ter, como jovem psiquiatra, acolhido Tito de Alencar no hospital. Este intelectual, duplamente comprometido, religiosamente como dominicano, e politicamente como líder de um dos movimentos de liberação nacional que emergiram no Brasil depois do golpe de l964, foi preso em 1969, em decorrência do assassinato do líder comunista Marighela. Este assassinato foi a obra secreta do delegado Fleury e dos esquadrões da morte. Na mente dos autores dele, cumpria um duplo objetivo: liquidar Marighela e comprometer definitivamente os religiosos engajados na luta revolucionária. Durante um encarceramento de vários meses, Tito de Alencar foi submetido a interrogatórios policiais e a torturas, por este mesmo comissário Fleury. Daquela experiência da tortura que definitivamente o deixou alquebrado, nós possuímos um duplo testemunho: por um lado, são escritas que ele teve a coragem de escrever na prisão (isso foi publicado em uma compilação que foi dedicada a ele: " Então as pedras gritarão ", e por outro lado, a restituição desta experiência, como ele mesmo a transmitiu por meio de um estado melancólico e delirante apresentado nos meses que precederam sua morte.
Talvez porque, pela sua origem, pertencia à classe média, tradicionalmente favorável ao regime político da situação, mas também porque ele era religioso, parece que Fleury e os torturadores dele obstinaram-se sobre o Tito de Alencar com uma crueldade particular. Para escapar disto, ele teve recurso, na própria prisão, a uma tentativa de suicídio, seccionando a artéria do braço, e só escapou graças à vigilância dos executores dele, receiosos em ter que assumir a responsabilidade por este gesto. Tito evoca nas escritas dele a frase que ele ouviu no seu meio-coma: 'Doutor, aquele é absolutamente necessário salvá-lo, caso contrário nós estamos perdidos.' [1] É inclusive graças a este suicídio que a Igreja, em primeiro lugar e depois outras instâncias da sociedade, foram alertadas a respeito da prática da tortura nas prisões brasileiras.
Porque, como nós o veremos com mais detalhes, uma das condições da prática da tortura é a de poder se beneficiar com uma clandestinidade de fato.
Graças às circunstâncias excepcionais - o rapto do embaixador de Suíça pelos revolucionários brasileiros seguido pela liberação dele em troca de um certo número de presos políticos - Tito de Alencar pôde deixar a prisão em 1970, e foi expulso imediatamente. Depois de uma breve permanência no Chile e na Itália, ele foi acolhido na França.
Mas esta real liberdade só fez dramatizar a alienação interior para a qual a experiência da tortura o tinha definitivamente empurrado. De fato, desde as primeiras vezes, Tito mal conseguia iniciar, e logo os abandonava, estudos, psicoterapia e até mesmo psicanálise. Durante a sua longa permanência em Paris, de acordo com seus amigos, ele era um homem completamente aboulique, retomando sem parar um questionamento político, religioso, duvidando profundamente de si mesmo, e convencido de ter traído a causa dominicana como também a causa revolucionária. Ele passava horas escrevendo, como que para tentar reconstruir uma verdade interior, e é certo que foi neste exato ponto que a tortura teve pleno êxito contra ele.
Frente a este desespero, seus superiores religiosos tiveram a idéia de confiá-lo a uma outra comunidade dominicana, particularmente carinhosa, a de Éveux, neste convento bonito construído por Le Corbusier, em meio às colinas do país Lyonense. Depois de um período onde Tito se achava obviamente melhor, explodiram, ruidosamente e dramaticamente, as demonstrações delirantes que não iam deixá-lo jamais, até seu suicídio alguns meses mais tarde. Começou com as fugas inexplicadas, cada vez mais freqüentes, e mais longas. Inexplicadas até que um dos Irmãos dele, mais próximo, descobrisse a razão delas: O Fleury falava a Tito e lhe dava ordens – para não entrar, não deitar, para não comer... O Tito foi se redobrando cada vez mais em si mesmo, cada vez mais mutique, cada vez mais triste. Na seqüência de uma destas fugas, ele foi levado para o hospital.
Foi uma cena trágica aquela que presenciamos então: um homem como que encurralado, entregando-se a nós como se fôssemos seus executores. Quando foi para o quarto, ele logo se jogou na parede, braços para cima, como que para ser executado na hora. Depois quando foi para administrar-lhe um remédio para alívio, tomou-o como se fosse o veneno que devia acabar com ele. Cena dramática porque ali era reconstituída completamente, literalmente, a situação exata da tortura, situação que neste momento nós não tínhamos meio de entender, mas que, pouco a pouco, graças à cooperação com seus Irmãos Dominicanos, com os amigos dele, nós conseguimos levar à luz do dia.
Adquirimos rapidamente a convicção de que não estávamos na frente de uma patologia psiquiátrica habitual, nem de um ponto de vista semiológico nem num plano que eu chamarei ético. Os sintomas apresentados por este paciente, embora pudessem ser os de uma melancolia habitual, tomavam lugar em um mesmo contexto de exibição bastante particular. Eu falei de «cena» porque o painel clínico incluía uma dimensão muito intencionalmente teatral; apesar do mutismo quase total deste homem, apesar da força de sua crença delirante de que éramos algozes, pressentíamos também que sua consciência não tinha realmente virado para uma convicção delirante, e que o que o paciente nos expunha era mais um testemunho do que uma patologia. A intensidade do sofrimento psíquico - mais que da dor moral – ia no mesmo sentido.
Eu percebo agora que a aposta que nós fizemos naquele momento – a equipe de enfermagem e Irmãos Dominicanos – a de considerar este estado menos como uma patologia do que como um testemunho, ia no sentido da intenção de Tito de Alencar expressar por este "delírio" (ou talvez por esta exibição histérica, mas não importa...) os tipos de crueldade que ele tinha sofrido durante sua tortura, muito melhor e muito mais precisamente do que o que ele poderia escrever a respeito. Tocamos aqui ao limite da linguagem que só pode dar conta daquilo que não escapa à consciência, enquanto o delírio dele transmitia tudo o que pudera ser trocado inconscientemente entre a vítima e seu carrasco. Mas também, esta aposta queria proteger o Tito de uma decadência apontada pelo torturador. O projeto do torturador era exatamente "tornar louca" a sua vítima, mas em um pós-golpe distante, em um tempo onde a relação de causa a efeito com a tortura não seria mais óbvia. A loucura assim instalada denunciaria simplesmente uma constituição doentia do paciente e também geradora, por que não?, de seus equívocos na luta e no compromisso político. Um diagnóstico psiquiátrico de loucura teria definitivamente difamado Tito de Alencar.
Apesar de várias remissões onde os sintomas desapareceram, onde seu relacionamento com os outros melhorava, nada mudou verdadeiramente em Tito desta tendência em reviver, e fazer reviver, compulsivamente, a situação da tortura, como que testemunhando com isso a força e a qualidade particular – digamos logo erótico – do vínculo que o tinha amarrado indelevelmente e apesar dele mesmo a seus torturadores. Suas relações com os Irmãos de sua comunidade, aparentemente simples e calorosas de novo, arranhava-se com crises interpretativas onde Tito os suspeitava de ser os cúmplices do Fleury. De uma maneira permanente, porém subterrânea na maioria do tempo, a sobrevivência nele da situação da tortura seguia seu curso.
É provavelmente para escapar novamente da tortura que Tito de Alencar cometeu suicídio, em um momento em que estava aparentemente melhor e tinha aceitado a idéia de se inscrever socialmente assumindo um trabalho na periferia de Lyon. Não se pode evitar de ver neste suicídio exitoso a retomada do seu gesto fracassado nas prisões de São Paulo, gesto do qual tinha sido desapropriado por seus algozes, como da última liberdade à qual o homem pode pretender. E sentimo-nos autorizados a interpretar as circunstâncias do seu suicídio, já que se enforcou ao topo de um álamo, em uma descarga pública: assim o pássaro migratório se deixa pegar pelos fios elétricos... Poetizamos os fatos, em reação exatamente a este movimento de despoetização que a tortura realiza no ser? Se a própria linguagem é impotente em prestar conta dos acontecimentos, isto resulta na sua desqualificação como meio de expressão poética; daí a busca de meios substitutivos, como a patologia, tanto o delírio quanto o suicídio.
E neste suicídio, e sua cena particular, não estaríamos ouvindo seu infortúnio de exilado, sua erradicação, seu país obviamente de onde tinha sido expulso mas também a erradicação bem mais profunda que a tortura tinha provocado em relação a ele mesmo, à sua identidade, aos seus ideais...
O suicídio de Tito de Alencar desvela claramente a natureza destrutiva da tortura. Entre os significados que podem ser apurados deste suicídio – bem como da precedente tentativa - há essa vontade de dramatizar que ele tinha morrido, em um certo sentido, digamos espiritualmente, durante a prova da tortura, que não passava mais, de lá para cá, de um sobrevivente.
Certamente a tortura não inclui sempre um resultado tão destruidor, e, em particular, companheiros de Tito, igualmente torturados, não sofreram as mesmas conseqüências. O caso de Tito nos leva a nos interrogar sobre o que foi que tornou tão assassina essa experiência para ele. Se confrontarmos o que tivemos oportunidade de observar do seu delírio e as vicissitudes de sua sobrevivência, com os testemunhos escritos que ele deixou, precisamos admitir ou que o efeito psicológico que vem com qualquer tortura física foi particularmente agudo no caso dele, ou que, ao lado das crueldades meramente físicas, Tito sofreu uma forma particular de tortura psicológica. Isso é tanto mais provável que, por conta de seu status social de padre e intelectual, Tito de Alencar representava para seus algozes, e em particular para o delegado Fleury, um símbolo. Símbolo de uma nova aliança da fé e da revolução, opondo-se à aliança tradicional da Igreja e do Estado, e que era necessário desqualificá-la absolutamente para evitar sua propagação. Esta aliança, pela sua ambigüidade, pela sua novidade, representava uma déviance, suscetível de encontrar uma saída positiva, e da qual era necessário demonstrar a negatividade, absolutamente. A ambigüidade da aliança será o exato lugar onde o torturador agirá, e agirá psicologicamente, por meio de um duplo movimento de desqualificação da dialética que está em jogo aí, e de evidenciamento da incoerência que nela está também presente.
No testemunho que Tito de Alencar escreveu no cárcere em 1970, acha-se uma descrição muito literal dos fatos sofridos. Seu primeiro contato com a tortura é o «pau de arara », tortura que consiste em ajoelhar o preso nu, enfiar uma barra de ferro na dobra dos joelhos, prender por trás seus pulsos com seus calcanhares, e em seguida suspendê-lo de cabeça para baixo. «Assim suspendido, despido, eu recebi descargas elétricas de corrente contínua nos tendões dos pés e na cabeça. Os torturadores eram seis. Eles me aplicaram o "telefone" (bater as duas orelhas com a palma da mão ao mesmo tempo para fazer explodir os tímpanos) e eles me gritavam injúrias.» [2]
Identifica-se aqui, por parte dos torturadores, a busca de um efeito de estimulação (sommation) das diversas fontes de excitação: físicas, elétricas, sonoras e também verbais, e a nudez traz consigo uma excitação muito diretamente sexual. Mas reencontraremos essa estimulação de outro modo. De fato, os torturadores não vacilam acumular crueldades nas distintas partes do corpo. «Eles lançaram algumas descargas elétricas em minhas mãos, em meus pés, em minhas orelhas e em minha cabeça. A cada descarga todo meu corpo passava a tremer como se fosse despedaçar[3]» Por meio desta estimulação, além da brutalidade, busca-se provocar uma mutação psíquica do sujeito. Mas se podemos, nós, decifrar esta situação assim, Tito, ele, não podia discernir a estimulação que estava em jogo, nem a intenção que a ela presidia. O testemunho posterior do delírio é muito mais autêntico que o testemunho escrito porque nos mostra que Tito podia ter consciência somente de uma parte da situação; acontece desde o começo da tortura uma dissociação muito clara entre a consciência imediata dos fatos, e uma interiorização mais inconsciente onde não importa mais a diferença entre sevícias sofridas e sevícias desejadas. «Era eu impossível saber que parte do corpo era mais doída. Eu tinha a impressão de ser esmagado por toda parte. Minha mente não era mais coordenada, eu só tinha o desejo de perder os sentidos[4]”.
A estimulação visa de fato engajar, sem o conhecimento da vítima, seu desejo, e solicitar assim mesmo uma cumplicidade. Pois, pelo sofrimento, o corpo é solicitado eroticamente até o ponto onde uma auto-excitação interna é capaz de dar continuidade, de modo quase autônomo, à excitação externa. Confusão e culpabilidade virão como conseqüências de uma certa dissolução de categorias do interior e do exterior: não é o torturador que faz perder os sentidos, é ele mesmo que passa a sentir o desejo disso. Reencontramos, claro, o desejo à obra, de modo grotesco, na reconstrução delirante da tortura.
Um passo a mais na mutação psíquica secreta da vítima é perceptível no seguinte evento relatado por Tito: ele cai nas mãos de um novo torturador, o capitão AIbernaz. «Quando eu venho na Operação-Bandeirante, eu deixo o coração em casa. Eu tenho horror dos curas... Você conhece Fulano e Beltrano? (menciona os nomes de dois presos políticos torturados, com muita selvageria por ele), você vai ter direito ao mesmo tratamento: descargas elétricas o dia todo. Para cada um de seus NÃO, você receberá uma descarga mais importante. Havia três militares na sala. Um deles gritou: "Eu quero nomes de homens e de organizações clandestinas ".
Quando eu respondi: "Eu não sei, eu recebi uma descarga elétrica tão forte, daquelas diretamente plugadas na tomada, que eu perdi o controle de minhas funções fisiológicas [5].»
É difícil superarmos o pathos desta situação, e o espanto onde é deixado o leitor. Medimos a decadência onde é levado o verbo nesta experiência, tanto pela nossa tendência em ficar sem voz perante este relato quanto pelo fato de que o torturador parece não esperar por outra resposta a não ser exatamente o NÃO. O desespero na tortura passa pela decadência da linguagem. Há algo realmente infame nesta estratégia que usa, com aparente objetivo de fazer falar, de um constrangimento que organicamente castra a pessoa de seus meios de expressão, a tal ponto que o leitor é submetido à convicção, nesta passagem, que a tortura não é usada como um método de interrogatório policial, mas que ela tem um objetivo autônomo que é o de uma compromissão.
De fato, as descargas elétricas visam precisamente aqui a levar a vítima a se sujar. Ainda em sua narração, Tito alude a alguns as várias pessoas presentes ao lado do torturador: uma multidão de olhares que, portanto, concorrem, através de voyeurismo, para erotizar o relaxamento dos esfíncteres e os afectos múltiplos que o sujeito passa a sentir. Insistimos no exibicionismo presente em seu delírio e pode-se ver neste exibicionismo delirante a retomada de um afecto sofrido na tortura, o qual Tito não tinha meios de controlar, ao escrever.
O horror continua para ele: «Ele (o torturador) entrou nos ataques morais: Quais os padres que têm amantes? Por que a Igreja não expulsou vocês todos? Quem são os padres terroristas? Disse que a Igreja é corrupta, que pratica malversações financeiras, que o Vaticano é o proprietário das maiores empresas. A todas minhas respostas negativas, eles me davam descargas, socos, pontapés, e golpes de vara no tórax. Num determinado momento, o capitão Albernaz ordenou que eu abrisse a boca para receber "a hóstia sagrada ". Ele introduziu um fio elétrico. Eu permaneci de boca inchada, sem poder falar adequadamente. Eles gritavam contra a Igreja. Eles gritavam que os padres são uns homossexuais porque eles não são casados... Eles só pararam às quatorze horas» (nota-se que tinham começado de manhã às oito horas)[6].
A densidade patética da narração vem da pressa com que foi escrito, como em uma luta contra o esquecimento, contra o recalque benfazejo a curto prazo, mas que o alienará posteriormente, ao ter que rememorar pelo viés do delírio.
Tito, como foi falado, nunca mais conseguiu habitar sua identidade de religioso, e uma parte grande de seus escritos expressará a busca dolorosa de uma espiritualidade nova, impossível porquanto a procurava exclusivamente na reconciliação de ideais contraditórios: Freud e Marx, Marx e Cristo, etc.
Neste último fragmento da narração, percebe-se melhor por que procedimento a tortura consegue a mutação psicológica do sujeito. Consiste na destruição de auto-representações idealizantes do eu. Mais justamente aqui, o que especificamente é contestado é a representação a mais espiritual, a mais especular também, a do padre. Destruição seguida pela imposição de uma nova identidade, como a negativa da anterior,: «Você é um falso padre», em contradição: “A Igreja é corrupta », e na sensação de uma decadência: «Os padres são uns homossexuais.»
Esta palavra que diz ao mesmo tempo o verdadeiro e o falso, que se impõe do exterior e acha sua ressonância dentro, não poderá mais ser objeto de uma elaboração espontânea. Caída de seu estatuto semântico, sofreu uma despoetização que a reduziu a um mero corpo estranho, uma coisa que habitará duravelmente o sujeito e que reencontraremos à obra, novamente, na hora das fases menos subterrâneas do seu delírio, quando a voz do torturador lhe ditará cada ato de sua vida.
Não há duvida que Tito de Alencar morreu no decorrer de suas torturas. Mesmo incorrendo no risco do pathos, estou inclinado a afirmar essa proposição na medida em que o que Tito era, o religioso, o lutador, mas também o homem inscrito numa história privada, doméstica, o filho, o irmão, não o era mais. Tito se tornou alguém outro, aquele que seu torturador teria querido que fosse. É neste sentido que pode-se dizer que era um sobrevivente do qual era talvez impossível, a nós que não havíamos passado por essa provas, entendermos o que dele sobrevivia.
Tudo aconteceu como se a tortura tivesse substituído um homem novo ao homem velho que ele era, o que só faz retomar o espírito da tortura onde o torturador focaliza seu olhar num só ângulo, o ser enquanto vítima, menosprezando absolutamente a realidade existencial do sujeito. Nos chamou muito a atenção ver que, quando uma de suas irmãs fez uma longa e cara viagem do Brasil para a França para ajudá-lo, mal a reconheceu, aceitou nenhuma familiaridade com ela, ficando impermeável a todas as tentativas para fazer reviver seu passado.
Ele era o novo personagem criado por Fleury, e isto é exatamente aquilo que a tortura visava. Pois anota-se um estreito parentesco entre a maneira com que o carrasco manipula as sevícias físicas e o modo com que manipula o insulto verbal. Nos dois casos, trata-se menos de ferir o exterior do que provocar um movimento interno de autodestruição e um movimento de autocrítica que devem continuar agindo por conta própria. É o que Tito de Alencar demonstrou em seu delírio quando impôs a si mesmo todas as privações que sabemos, mas também nesta atividade incessantemente repetida de auto-acusação. Seu caso poderia ser considerado como uma tortura exitosa, ou seja é possível que o ideal do torturador esteja em por a caminho o que, na pessoa humana, está disponível para uma auto-tortura (como conhecemos com freqüência na patologia): auto-desvalorização, autocrítica, autopunição. É talvez desta agudez psicológica que se vangloriou o Albernaz quando Tito lhe ouviu dizer: "Nós sabemos fazer coisas sem deixar rastros. Se sobreviver, nunca esquecerá do preço de sua audácia"[7].
Em um momento bem preciso, Tito teve o sentimento de ter traído, dando nomes. Ele se acusará precisamente por muito tempo, de modo melancólico, embora todos os testemunhos contrariam essa convicção: ele não teria entregado nenhum nome sob a tortura. Vê-se aí, nesta auto-acusação, um meio cômodo, imediato, para racionalizar sua culpabilidade, mas também, sobre esta culpa clássica de torturado, vem deslocando um sentimento mais escuro e expansivo da traição. Nas escritas, este sentimento de traição assume a forma de uma preocupação nascente para com o destino dos seus Irmãos Dominicanos. "Em minha cela eu não conseguia dormir. A dor aumentava cada vez mais. Eu tinha a impressão que minha cabeça era três vezes mais grossa que meu corpo. Era preciso acabar com isso uma vez por todas. Eu sentia que não poderia agüentar tamanho sofrimento por muito tempo. Eu estava angustiado à idéia que meus Irmãos Dominicanos pudessem sofrer a mesma coisa".
O desejo de morrer permanece indissociável deste sentimento de traição que representa a essência mesma da auto-tortura , tanto quanto é a meta suprema da tortura, pois é o grupo ao qual pertence a vítima que o algoz tenta alcançar por meio dela. Ora ao mesmo momento, uma campanha de imprensa é orquestrada publicamente contra o grupo dos Dominicanos. O jornal O Globo publicou o seguinte: «Eles (os Dominicanos) traíram a fé ao aderir ao comunismo, e traíram o comunismo ao entregar Marighela. São os novos Judas [8]» É impressionante como as mesmas acusações difamatórias, as mesmas calúnias, circulam aqui, no século, e ali, no espaço fechado, clandestino, inter-individual, da tortura. Sentimo-nos autorizados a considerar que é a mesma guerra que um certo grupo ideológico realiza contra um outro, aqui e ali. Daí a idéia de que a tortura poderia ser entendida como um tipo de microcosmo da guerra mais geral, oficial, uma guerra de «laboratório», onde os obstáculos, os fracassos que o poder enfrenta na realidade seriam como magicamente eliminados. Um microcosmo onde o poder se dá a ilusão de que a realidade é complacente com seu desejo: a tortura seria um campo de utopia. Ao esmagar Tito de Alencar fisicamente e espiritualmente, o torturador, e o grupo do qual ele é o representante, visavam talvez nada mais que reforçar-se na convicção de que eles poderiam acabar, sem dificuldade, com uma oposição de idéias, que ameaçava sua própria convicção.
A busca desta ilusão de vitória responde muito melhor pela crueldade das sevícias do que uma suposta busca de informações, já que, como se viu, estas sevícias quase sempre colocavam o Tito na impossibilidade de falar.
Tito, pessoa bem real, no entanto é torturado enquanto efígie do grupo dominicano do qual ele é o símbolo. Há na tortura um fundo de exorcismo que fica preso ao não-dito, ao não-sabido, de um lado e do outro, mas que traz sua própria confusão ao mistério da experiência. Freud, em Totem e Tabu, explica: "Um dos processos mágicos do qual se usa mais comumente para prejudicar um inimigo, consiste em fabricar sua efígie com materiais quaisquer. Poderá ainda se demonstrar que tal ou tal objeto representa sua imagem. Tudo o que se inflige a esta efígie atinge o modelo odiado. É suficiente ferir qualquer parte daquela, para que a parte correspondente do corpo deste fique doente”[9]. O material qualquer está aqui sendo Tito de Alencar, e o objeto que representa a imagem, é seu corpo.
Fiquemos com esta hipótese da tortura como prática exorcista, enquanto nos permite acompanhar a decadência da palavra e da linguagem tal qual acontece na tortura, até conduzir a esta forma semiótica particular que é a confissão. É de fato numa progressão experta que Tito de Alencar será despojado da sua palavra de homem, desde que a clandestinidade e a ilegalidade da tortura tiram toda referência ética. Despojado em seguida de sua palavra de homem, na medida em que a dominação sexual almejada pelo carrasco conduz a vítima a identificar-se a um corpo erógeno que só fala de excitação e compulsão à repetição. E enfim, com esta fase que a imagem de efígie ajuda a figurar, entendemos que a palavra chamada pelo torturador é não a palavra de Tito de Alencar, sobre Tito de Alencar, mas a palavra do representante de um certo grupo sobre o grupo em questão. É portanto uma palavra que, longe de ser ao serviço de uma verdade qualquer, não tem outra razão de ser senão tentar responder a uma expectativa bem precisa do torturador. Esta expectativa seria evidentemente a entrega de nomes, a prova de uma compromissão, de um erro, de uma traição, tanto faz. Porque, qualquer coisa que a vítima diz ou não diz,, esta será uma palavra que o executor ouvirá do jeito que ele esperava: eis a confissão.
Tudo fala em favor do torturador, como tudo concorre para provar à vítima que ela falou, porque a confissão nunca corresponde a uma declaração qualquer, mas a uma certa forma de decadência da linguagem onde o sinal verbal só se interpreta através do desejo daquele que o está escutando.
A ausência de terceiro, o livre desenvolvimento da onipotência do desejo do carrasco, caracterizam suficientemente o caráter furioso, psicótico, desta situação de tortura, que a decadência do verbo vem cristalizar.
Já há um século, um autor como Jules Michelet tinha percebido a dimensão delirante disto: «Uma bruxa confessa ter puxado ultimamente do cemitério o corpo de uma criança morta, para usar este corpo em suas composições mágicas. Seu marido diz: " Vá para o cemitério. A criança está ali". O corpo é exumado, encontrado exatamente no seu lençol. Mas o juiz decide, contra o testemunho de seus olhos, que é uma "aparência", uma ilusão do Diabo. Ele prefere a confissão da mulher ao fato em si. A mulher é queimada[10].»
Esta decadência da palavra, Tito a denunciará no longo mutismo que pudemos observar, bem como no automatismo mental, onde uma voz que não era mais a sua falava dentro dele.
A prática do torturador é louca, e, frente a esta loucura passional, a denúncia e a luta política têm que se fazer, no mesmo grau, passionais e impiedosas. Mas ela é também louca no sentido psiquiátrico do termo. Sem que isso em nada contamina a luta política, devemos clarear isto porque esta loucura situacional exerce por si só um efeito psíquico destrutivo sobre a vítima; mas existe também um interesse antropológico em entender este fato realmente misterioso de que homens civilizados possam endossar a responsabilidade de tal prática.
Pierre Vidal-Naquet[11], a propósito de torturas praticadas na Argélia antes da independência, nos convence da idéia de que a tortura só foi possível porque políticos deixaram seriamente de cumprir com sua função de controle das instituições e autorizaram um vazio legal que só permitiu a instalação de práticas torturadoras. Abandonado pelo jurista, dispensado, não sem complacência, pela lei, o soldado se torna torturador e, se assim pode-se dizer, ele se torna também louco, autorizando-se de uma conduta exorcista e mágica que lhe serve no lugar de pensamento.
Realmente só uma loucura, ou digamos um enlouquecimento, permite entender a crueldade extraordinária demonstrada nestas situações, a implacabilidade sádica que amarra literalmente o carrasco à sua vítima e do qual a narração de Tito de Alencar dá uma descrição de um realismo comovente e uma grande agudez psicológica. De fato, é de uma certa face do torturador, com sua estarrecedora inumanidade, que, constantemente, este texto nos fala.
Imagina-se a revelação que constitui para a vítima o encontro com este rosto do homem que desvela brutalmente, sardonicamente, o torturador,:
Tito terá que se debater com essa imagem, ao mesmo tempo para nela se reconhecer a si mesmo enquanto homem, e para dela se livrar numa contra-identificação às vezes próxima ao angelismo.
Aludimos, na história de Tito de Alencar, ao exibicionismo um pouco histérico que demonstrava. Em sua indiferença para com os outros, não estava ausente uma certa arrogância, até mesmo a convicção secreta de ser um herói, por ter passado por uma prova conhecida de nenhum outro, de ser de certo modo um iniciado. Ao lado do que tirava para o sentimento de decadência, uma patologia do «Eu grandioso» presidia ao seu isolamento. A mesma talvez tinha achado sua justificação na estranheza da experiência que, na confusão onde ele se encontrava, ele elaborou nos termos de uma iniciação sacrificatória da qual teria sido o único depositário, igual ao Cristo ao qual lhe ocorreu repetidamente se comparar.
Por nossa vez, fomos fascinados pela experiência que viveu, porquanto nela nos tocamos com este encontro inédito do homem, em sua crueldade virtual, da qual a civilização nos protege e nos separa. Eu vejo, pessoalmente, na multidão de escritos que esta vida suscitou, uma vontade de transmitir - não sem a idéia de uma possível redenção - esta revelação, em um movimento quase angélico. Mas estes atos de palavra têm no entanto uma função autônoma: livrar a palavra de Tito da subversão que a tortura lhe teria infligido.
É sempre por ocasião de causas religiosas, espirituais, ideológicas, que a tortura se desenvolveu. Não podemos desconhecer que neste contexto de idealidade - e de predisposição mágica que o próprio ideal proporciona - a tortura é tanto mais tentadora quanto lhe é atribuída uma eficácia que não tem a ver com a objetividade, mas com o poder de anulação que ela sabe implementar. Os processos de feitiçaria, a Inquisição, as dragonadas, os recentes genocídios que intentavam destruir como representante do mal o que era da ordem da diferença, todos convidaram a tortura para este fim.
JEAN-CLAUDE ROLLAND
Por Paulo Dylan
Tempos modernos, de certa forma, escravos da tecnologia vigente, e o mais interessante é que ainda se fala em modéstia. Mas, o que é a modéstia? A modéstia é uma hipocrisia, através da qual, o mundo vai se inchando de inveja e, o homem procura obter perdão por excelência e méritos junto a quem não os tem. Em algum determinado momento deixaremos o mundo mais tolo e depravado quanto o encontramos e a boa vontade será o homem forte cego que carregará nos ombros o homem manco que enxerga. Depois que a humanidade transformou todos os sofrimentos e tormentos numa concepção do inferno, do céu restou apenas o tédio. E o otimismo, onde se encontra? O otimismo encontra-se numa zombaria amarga das desgraças humanas e exemplos como estes são como um espelho: se um asno olhar para ele, não se pode esperar que se veja um santo.
Despertar a convicção de que nada, absolutamente nada, vale a nossa luta, esforços e disputas, que todas as coisas boas são uma vaidade, a sociedade em todos seus fins está falido, e a vida é uma negócio que não dá para cobrir as despesas. É pagar caro pelo prazer de respirar!
Agradeço a Deus por não ser tão jovem em um mundo tão inteiramente liquidado e, para ser feliz, tem-se de ser tão ignorante quanto os jovens. E o que mais me incomoda é o barulho que os mesmos fazem. O barulho é uma tortura para todos os estudiosos e intelectuais; a forma de bater, martelar, berrar, derrubar coisas de um lado para o outro tem sido o meu tormento a vida toda. E como remuneração, o otimismo, da qual mencionei acima, fica difícil nestas circunstâncias. Se tudo aqui escrito tivesse sido uma palestra, haveria centenas de cadeiras vazias.
Apesar de tudo, este artigo praticamente não atrairá atenção alguma; a sociedade está demasiado pobre e exaurido para ler sobre sua pobreza e sua exaustão. Por fim, num futuro próximo, este mesmo artigo será jogado no lixo como papel velho. Que Deus nos abençoe !
No mais, meus sinceros agradecimentos pela atenção!
São Paulo, 06 de Janeiro de 2010
Numa cidade onde o problema é a auto-identificação, muitas pessoas fazem grupos de rock destinados à compartilharem com outras pessoas dificuldades idênticas. Mas, não existe muita diferença entre o artista e o público. Infelizmente, muitos acham que o artista sabe e conhece coisas ocultas, o que não é verdade. Simplesmente, o artista deve ter o ego seguro para que as pessoas o amem pelo o que faz, e não pelo o que é. O artista tem sentimentos próprios, mas, acha que, fora do palco ou da tv, ele se apaga, se torna vazio e comum. Todos nós somos idênticos, não somos ?
Kurt Cobain, construiu um novo império, mas, durou tempo demais, tempo suficiente para sentir o vazio do tédio e do ócio. Quem trabalha das oito às seis, não sabe a sorte que tem. Quando tenho um tempo livre, eu o aproveito o máximo possível. Mas, o que há de excepcional nisso ? Simplesmente o fato de ser ocasional e raro.
Lembro-me dos primeiros tempos do “Nirvana”, eu tinha acabado de me alistar no exército, quando a febre do álbum “Nevermind” estorou nas cabeças dos adolêcentes daquela época. Às pessoas então começaram a usar cabelos compridos novamente, como nos anos 70, e conhecíamos uns aos outros. Lá estava eu, tentando me livrar do alistamento militar, quando três rapazes invadiram à nova onda do rock alternativo. Amigos, músicos e poetas locais se reuniam no fim de semana para discutir e lerem seus poemas e onde os mais velhos vinham pegar suas garotinhas e onde eu ia beber em memória de mais uma semana desperdiçada. Eu estava no mundo de Karl Marx, Kant e Descartes, era o que havia de mais importante para mim, assim com a música dos anos 60 , 70 e algumas coisas que restaram dos anos 80. Primeiramente o “Nirvana” surgiu como novidade, depois como um modo de vida; calças rasgadas e camisetas flaneladas, um modo de viver que cresceria junto com o mito dos anos 90, Kurt Cobain.
Enfim, escapei do exército e comecei prestar atenção no som da banda de Seattle. Será que Kurt Cobain jamais soube como ele mudou à música na década de 90 ? Será que estava preso no seu próprio mundo ? Ou será que foi um golpe de sorte que poderia ter acontecido com qualquer um ? Nunca saberemos, e se ele sabia jamais diria.
Se Kurt não tinha nada a ver com o sucesso do “Nirvana”, então sua morte pode ser compreendida com mais clareza. Podemos imaginá-lo inútil, sentindo-se talvez como um joguete das circunstâncias, sentindo que não tinha coisa alguma à oferecer. Será que fracassou em seu desejo de ser músico ? Lembro-me dele nos programas de tv, desanimado, deslocado e ao mesmo tempo inquieto.
Mas, talvez ele fosse realmente um gênio, como muitos dizem, tornou-se líder supremo de uma geração. Se ele era um grande inovador exprimindo suas vontades e trazendo honestidade a um meio corrupto e caótico, muitos devem ter sofrido quando ele resolveu tirar a própria vida com um tiro na cabeça. O que haveríamos de fazer depois dessa tragédia? Acabaram as excursões, as intrigas, os planos, os truques e o mito. Antes de morrer, teria ele ficado sozinho e depressivo, debruçado sobre músicas colossais, tentando encontrar as palavras certas para suas canções ? Talvez queria afirmar sua competência perante os outros e perante a si mesmo.
Será que o público já sabe que, na idade em que se encontram os artistas, estão hoje com uma vida definida; segurança, família, um emprego ? Muitos já são casados e têm um filho ou dois e estão com suas vidas ordenadas, alguns com finalidade, outros não. Isso acontece com as pessoas que são menores ou maiores, ou pelos menos, muito diferente de mim e de você. E no entanto, não há filho mais delinqüente, não há família mais caótica do que a platéia que se senta à mesa do rock.
Quem exprime suas emoções com tanta violência ? Se a platéia do rock é apenas uma única e imensa pessoa, você precisa ser forte - se é um músico - para não depender dela. Se você subir num palco procurando amor, prepare-se, ou como diria os analistas, não dependa de ninguém, nem de seus amigos e nem do seu amor, porque a frustação só pode ser vivida de um modo violento. Se há alguma falha, então as energias são empregadas para copiar os piores aspectos da pessoa, e em breve tanto a mente, como o corpo estão exaustos. Então, corremos para o quarto para colocar a cabeça em ordem, para tentar segurar a barra, para encontrar uma saída.
Como é verdade ! Você não pode corresponder às expectativas de todo mundo, que você não pode ser tudo para todos. E se é verdade que você não pode ser outra coisa, a não ser o que você é. Então, deve ser forte se pretende colocar essas coisas num palco, em público, diante “deles” que esperam e prevêem o tempo todo a queda de seus ídolos. E se é verdade, é inevitável e triste, e nada pode ser feito para eliminar vícios tão antigos e que os grandes heróis estão todos embalsamados, mortos com seus segredos.
19 de Abril de 2006
São Paulo, 10 de Maio de 2006
Querido diário : Hoje eu acordei de mau-humor. É um frio de outono, cinzento e gelado dia. De noite é maravilhoso, vista panorâmica e luzes acima de mim. Nas ruas, nas casas, luzes piscam como árvores de natal, algumas à distância parecem tochas, é maravilhoso e glorioso. De dia as maravilhas e a sensação mágica se vão, e eu estou entre construções em obras e muita confusão cruzando minha vista.
A empregada me acordou hoje pela manhã, ignorando minha privacidade, ignorando o “não perturbe” , e aproximou-se batendo à porta e falando alto, acordando-me sem se importar, nem um “desculpe-me”, simplesmente como muitos pensam : “dane-se você !” , deixando o “não perturbe” de lado.
Não existe mais pessoas educadas, tudo está fechado para mim por causa das ameaças e da indiferença de minha família. Parece não ter fim. Por que eles me odeiam ? Será porque estou numa idade em que chegou o momento de ter mais privacidade, liberdade, de ser eu mesmo ? Tudo parece estar projetado por amadores, é tão profundamente “ridículo” que você ri. Felizmente eles têm uma televisão e um rádio para ver e ouvir.
Mas, eu não posso tê-los no meu quarto, porque querem ver você no chão, sendo submisso e sujeitando-se às suas vontades. Eu não tomo um “porre’ há um bom tempo. Eu me divirto, às vezes, me sentindo “normal” e “forte”, sem ser afetado pelas pressões e pelo álcool. Tive momentos realmente bons, embora muitos tivessem previsto que não conseguiria alcançar meus objetivos. Mas, eles estão completamente enganados.
Ah, mas às vezes eu finjo para não me sentir mal e saio para colocar as idéias no lugar, uma legítima consciência de perceber o que está se passando comigo. Minha família e as pessoas lá fora, são ilustradas e polidas tanto quanto uma ilusão pode fazer, enquanto eu encaro a vida como uma peça.
Desculpem-me as pessoas que querem ouvir de mim um “tudo bem, faço o que vocês mandarem”. Já passei dos 30 anos e não posso fazer coisas que outras pessoas querem que eu faça, porque não tenho mais 12 ou 15 anos, onde os pais controlavam e batiam se não obedecesse suas ordens. Isso é ridículo ! Mas, eu acredito na minha auto-estima e vou viver e morrer por ela, talvez abrir meu próprio negócio, onde eu não possa ser demitido, controlado e vigiado. É a coisa mais clara à se dizer.
Uma outra coisa. Meu pai veio me dizer que não tenho “percepção” das coisas, com aquela história : “não faça isso, não faça aquilo”, mas, outro engano, todos querem me usar para evitar problemas, querem que eu segure a barra por causa deles. Em certos momentos, me tratam como um “cão raivoso’ ou como um “marginal” por causa de minhas roupas pretas, etc. Eu sou eu mesmo, ignorando os crescendos de várias emoções, atendendo à noção do que eu realmente sou.
Aproveitando-se do espaço, eu escrevo textos, letras e poemas, e alguns mantêm-se implorando: “fale comigo”. Eu devo dizer à vocês : eu falo por meio de textos, letras e poemas. Eu digo à vocês mais do que muitos sabem sobre seus amigos. Eu tenho essa relação com vocês durante anos e nunca ultrapassaria e nem abusaria disso. Eu falo de coração, falo com sinceridade por meio de palavras escritas num papel.
Paulo Dylan
São Paulo, 27 de Outubro de 2009
Prezado amigo (a),
Parei de morrer para comunicar-vos!
Com grande esperança aguardo vosso argumento, pois há tempos venho me escondendo das trevas humanas. Espero me expressar com bastante clareza, sou como os pequenos córregos, que são transparentes por não serem profundos.
Devo ressaltar...pela boa pessoa que é...que ame uns aos outros, viva com tranqüilidade, cultive vossa arte, fale sobre ela. Imagino que um dia eu possa viver neste pequeno paraíso, pois a filosofia/literatura...à qual amo...é a profissão do homem que deseja ser inútil a sociedade, um fardo para a família e um morto de fome. Meu receio é que eu morra antes de ter prestado serviço. Mesmo assim, morro adorando a Deus, amando meus amigos, sem odiar meus inimigos e detestando a superstição.
Dizem que este é o melhor de todos os mundos possíveis, mas por qual motivo tantos homens cortam a garganta no melhor dos mundos possíveis?
Que seja na música, numa conversa ou num poema, mostre o que seu coração tem de melhor a oferecer e, se Deus é nosso alvo, temos sorte, é tão grande que não podemos errar.
Eu vos agradeço a atenção em nome do alfabeto.
Sou, com profundo respeito de vossa pessoa, muito humilde,
Paulo Dylan
Quando colocou irreligiosidade nas suas novelas, nossos magistrados inevitavelmente viram-se obrigados a imitar os de Paris e Berna, *[* Eu fui banido do Cantão de Berna apenas um mês depois do decreto de Genebra] que promulgaram, e o expulsaram. Mas o Conselho de Genebra, mostrando sua compaixão e justiça, deixou abertura para o arrependimento de um culpado desajustado, que poderia retornar à sua pátria e lá merecer seu destino.
Hoje não se esgota a paciência quando ele publica um novo libelo, no qual desafia com furor a religião cristã, os religiosos que a professam, todos os sacerdotes do Santo Evangelho e todo o corpo estatal? A loucura não pode mais servir de desculpa, pois ele sabe que comete esses crimes.
Ele teria hoje uma bela declaração: reconheçam a doença cerebral em minhas inconseqüências e minhas contradições. Nada será mais verdadeiro do que este delírio, que levou-o ao cúmulo de insultar Jesus Cristo – já que escreveu que o Evangelho é um livro escandaloso, (página 40 da edição de bolso) temerário, ímpio, cuja moral é ensinar os filhos a desoberecem suas mães, seus irmãos, etc. Não repetirei as outras palavras: elas são tremendas. Ele crê disfarçar a repulsa pondo-a na boca de um oponente, mas não responde a esse oponente fictício. Ele nunca foi condenado o bastante por ter feito estas objeções infames e distorcer desta forma maliciosa o sentido natural e divino das parábolas do nosso Salvador. Tornamo-nos, junto com ele, infernais, ao analisar o Evangelho assim. Ah! Quem já analisou assim? Quem é essa alma infernal? Parece que o autor desta peça pode responder melhor do que ninguém à esta questão. [Espero que o leitor não deixe de consultar o que precede e o que se segue nos pontos citados.] La Métrie, com o homem-máquina, diz que conheceu um perigoso ateu, que restaura a racionalidade sem a contestar, vê-se logo quem era este ateu, certamente não está autorizado a apresentar tais venenos sem apresentar o antídoto.
É verdade que Rousseau, neste mesmo escrito, se compara a Jesus Cristo com a mesma humildade com que diz que lhe devemos erigir-lhe uma estátua. Sabemos que esta comparação é um dos seus acessos de loucura. Mas uma loucura que blasfema a tal ponto pode ter outro médico senão a mesma mão que fez justiça aos seus outros escandâlos?
Se ele acredita preparar, com seus escritos obscuros, uma desculpa para suas blasfêmias, atribuindo-as a um delator imaginário, não pode contudo desculpar-se de maneira nenhuma pelo modo que fala dos milagres do nosso Salvador. Ele diz claramente, com seu próprio nome (pág.98) “Existem milagres no Evangelho, que não podem ser intepretados ao pé da letra sem que se renuncie ao bom-senso”. Ele faz ridículo todos os prodígios que Jesus operou em sua consdescendência para estabelecer a religião.
Repetimos então, aqui, a demência que existe em se declarar cristão quando ele subverte o primeiro princípio do cristianismo; esta loucura não o torna mais do que um criminoso. Se é cristão e quer destruir o cristianismo não é apenas de um blasfemador, mas também um traidor.
[120] Após ter insultado Jesus Cristo, não é surpreendente que tenha insultado os ministros do seu Santo Evangelho.
Ele chama as profissões de fé de Amphigouri [ininteligíveis] (pág. 53). Um termo de gíria e de jargão, que significa insanidade. Compara a sua declaração com as de Rabelais, que disse que eles não sabem nem no que crêem, nem o que querem e nem o que dizem.
Não sabemos, diz Rousseau em outra passagem, [pág.54] nem no que eles crêem, nem no que eles não crêem, nem o que parecem saber.
Está aí, então, aquilo que o culpa da mais negra hipocrisia, sem nenhuma prova em contrário, sem nenhuma desculpa. É assim que ele trata quem o perdoou de sua primeira heresia e que não teve a menor culpa na punição da segunda, quando suas blasfêmias, difundidas em um novo romance, foram entregues ao carrasco. Existe apenas um cidadão, entre nós, que tendo pressão no sangue, esfrie diante desta conduta e não fique indignado contra este caluniador?
É permitido que um homem de nossa cidade ofenda a tal ponto nossos padres, em cuja maioria são nossos parentes e amigos, e às vezes nossos consoladores? Consideremos quem os trata assim: é um sábio disputando contra sábios? Não, é o autor de uma ópera e de duas comédias vaiadas. É um homem de bem que, iludido por um falso zelo, reprova indiscretamente homens íntegros? Admitamos com dor e vergonha que é um homem que ainda guarda as marcas horríveis de sua corrupção e que, disfarçado de saltimbaco, arrastou-as de cidade em cidade e de montanha em montanha; o infeliz que fez morrer a mãe e que abandou os filhos às portas de um hospital, renegando os cuidados que uma pessoa caridosa poderia querer ter com eles; renunciando a todos os sentimentos naturais e se despindo de todos sentimentos de honra e religião. Gostaria de declarar com simplicidade o que de mim exige este artigo. Nunca uma das doenças de que fala este autor me atacou – nem pequena, nem grande. Bem o sabe as pessoas que cuidaram de mim quando criança, ainda vivas. Esta doença seria conhecida de Sr. Malouin, Morand , Thierry, Daran, e do irmão Côme. Se ele descobriu o menor traço de corrupção, eu rogo a eles que me surpreendam e façam me envergonhar das minhas palavras. A pessoa sábia, e geralmente estimada, que cura os meus males e consola minhas aflições não é infeliz unicamente porque compartilha da sorte de um homem infeliz. Sua mãe está ainda cheia de vida e com boa saúde, apesar da velhice. Nunca expus, nem deixei que expusessem, nenhuma criança a um hospital ou onde quer que seja. Uma pessoa que tenha a caridade de que se fala deve guardar segredo. Todos sentem que não é em Genebra – onde jamais vivi e de onde tanta hostilidade se espalha contra mim – que deve-se esperar informações confiáveis acerca da minha conduta. Não acrescentarei nada sobre esta passagem, senão que seria melhor ter feito o assassinato que o autor acusa-me do que ter escrito algo similar a ela.
Este é, então, aquele que ousa dar conselhos aos nossos concidadãos! (Veremos logo quais os conselhos) Este é, então, o que fala dos deveres da sociedade!
Certamente ele mesmo não cumpre estes deveres, quando, no mesmo libelo, traindo a confiança de um amigo, [creio dever advertir o público que o teólogo que escreveu a carta da qual fiz um resumo não é, nem nunca foi meu amigo, vi-o apenas uma vez na vida, e ele não tem nada a deslindar, para o bem ou mal, com os ministros de Genebra. Esta advertência me pareceu necessária para prevenir interpretações insensatas] imprimiu uma de suas cartas para melindrar um grupo de três padres. É aqui que pode-se dizer – concordando-se com um dos homens mais importantes da Europa – acerca deste escritor, que escreveu um romance de Educação, que, para se elevar um rapaz é necessário primeiro que ser bem elevado. [todo mundo concorda, penso, que eu e o autor desta peça não temos a mesma educação e nem a mesma religião].
Vejamos o que particularmente nos diz respeito: a nossa cidade que ele quis perturbar, porque foi tratado com justiça. Com qual intenção ele recorda nossos problemas adormecidos? Por quê desperta nossas antigas querelas? Ele quer que nos assassinemos [Pode-se ver na minha conduta os dolorosos sacríficios que fiz para não perturbar a paz na minha pátria e na minha obra, a força com a qual exortei os cidadãos a não perturbá-la nunca com qualquer radicalidade que possa reduzi-la.] porque se queimou um livro ruim em Paris e em Genebra? Quando nossa liberdade e direitos tiverem em perigo defenderemo-os bem sem ele. É ridículo que um homem deste tipo, que não é mais nosso concidadão, nos diga:
“Vocês não são nem espartanos nem atenienses (pág. 340), vocês são comerciantes, artesãos, burgueses ocupados com seus interesses privados e lucros. Não fomos outra coisa quando resistimos à Felipe II e ao Duque de Savoye; adquirimos nossa liberdade pela coragem e pelo preço de nosso sangue para nos mantermos na mesma.”
Que ele pare de nos chamar de escravos (pág. 260) pois não o seremos jamais! Ele chama de tiranos os magistrados da nossa República , quando são eleitos por nós. Ele diz que sempre se viu( pág. 259), no Conselho dos Duzentos, pouca luz e coragem menos ainda. Busca, acumulando mentiras, estimular os Duzentos contra o Pequeno Conselho, e os padres contra estas duas instituições; e por fim, todos contra todos, para nos expôr ao desprezo e ao riso dos nossos vizinhos. Ele quer estimular nossa indecência? Quer inverter nossa constituição ao desfigurá-la, como fez com o Cristianismo, que ousa mencionar? É o bastante avisar que a cidade que ele quer pertubar o desaprova com horror. Se ele acreditou que nós tiraríamos a espada por causa do romance Emílio, é melhor juntar esta idéia com suas outras loucuras ridículas. Mas é necessário que ele saiba que, se punimos levemente um romance ímpio, punimos gravemente um vil sedicioso.
POST SCRIPTUM da obra os cidadãos de Genebra intitulada: Resposta às Cartas escritas no País.
Parece que, depois de alguns dias, ninguém se sentiu ofendido com uma brochura de oito páginas intitulada Os Sentimentos dos Cidadãos; Seria rebaixante para os cidadãos aprovar um escrito deste tipo. Em conformidade com o artigo 3 do título XI do Édito, colocaram-no fogo, como libelo difamatório.
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